Opinião: A difícil relação entre futebol, torcidas e a violência

Depois das cenas lamentáveis de vandalismo e selvageria vistas no último sábado (24/11), a violência envolvendo torcedores voltou à ser pauta. Textos, matérias, debates e discussões acaloradas se sucederam em cima de um assunto que está presente no futebol há muitos anos. A relação entre esses três pontos, futebol, torcidas e violência é diretamente ligada ao âmbito social, e como uma espécie de espelho, reflete no esporte.

Independente de cidades, região, país ou campeonato, as confusões, brigas e cenas que fogem do aspecto esportivo acontecem com triste frequência, as vezes mais até do que divulgado pelos veículos de comunicação. Nem sempre bem debatido, o assunto costuma ser alvo de discursos populares, com soluções prontas, mas sem medidas realmente eficientes para a solução dos problemas. Um desses discursos relembra o que ocorreu na Inglaterra e aponta as medidas lá tomadas como caminho para resolução da crescente e sempre presente relação entre futebol, torcida e violência.

Hooligans e o futebol inglês

Desde o século XIX, indivíduos envolvidos em brigas ou confusões com futebol eram chamados de Hooligans*. Durante muitos anos, eram registrados poucos ou raros casos como esses. As mudanças começaram em meados da década de 1950, até o começo dos anos 80, onde o futebol inglês parecia caminhar para uma autodestruição.

Todos os problemas ocorridos anteriormente culminaram em 1985, um ano histórico pelos problemas provocados por esses torcedores. Em março daquele ano, torcedores do Luton e Millwall protagonizam uma guerra, televisionada para todo o país. No final da temporada regular, o Bradford celebrava o título da Terceira Divisão inglesa, quando um incêndio vitimou 56 pessoas. No dia 29 de maio, o mundo assistiu 39 torcedores morrerem e mais de 600 ficarem feridos em confrontos entre hooligans do Liverpool e ultras da Juventus, na final da Copa Europeia de Clubes, em Heysel, em Bruxelas.

O incidente no estádio de Heysel provocou uma reviravolta que mudaria o futebol inglês e europeu. A Uefa baniu os clubes ingleses de competições europeias por cinco anos, enquanto a primeira-ministra da época, Margaret Thacter formou um “gabinete de guerra” contra o que ela chamava de “inimigos internos”. Medidas iniciais foram tomadas, como circuitos internos de câmeras monitorarem torcedores e até a polícia se infiltrar no meio dos grupos de torcedores.

O problema é que em meio as primeiras medidas tomadas, em abril de 1989 ocorreu a maior tragédia do futebol inglês. Na semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, no estádio do Sheffield, em Hillsborough, 96 pessoas morreram esmagadas, pisoteadas ou presas nas grades. Após o ocorrido, Lord Taylor foi encarregado de fazer um relatório sobre as causas das mortes e dos problemas. Seu relatório foi publicado em 1990, depois de andar por todo o país, visitar estádios, conversar com especialistas e torcedores.

Para supressa do governo, Taylor retirou culpa dos torcedores e apontou para as autoridades, que trataram o público como criminosos. Além disso, o relatório tinha como proposta central, uma mudança radical no futebol inglês, com o fim de grades nos estádios, aumento de segurança e conforto, criminalizar invasões de campo, agressões verbais e arremessos de objetos no gramado. O Lord britânico ainda cobrou mais preparo das autoridades, clubes e da polícia, que estava acostumada a tratar TODOS os torcedores como potenciais vândalos.

As mudanças foram seguidas e o futebol inglês conseguiu reduzir (mas não acabar) com os hooligans. Ocorreu uma elitização do esporte no país, em decorrência das medidas do relatório Taylor, tornando os campeonatos caros para os torcedores.

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Sugestões de livros sobre o tema (Foto: Arquivo pessoal)

Repetir o que ocorreu na Inglaterra, pode ser um caminho, mas é preciso lembrar que as circunstâncias são bem diferentes, culturalmente, esportivamente e principalmente, politicamente. O futebol brasileiro, assim como o argentino, tem relação direta com aspectos da sociedade e os seus problemas e demandas. É impossível desassociar questões sociais da violência vista dentro e fora dos estádios. Vivemos em sociedades que tem no esporte, e nesse caso, no futebol, válvulas de escape.

O que aconteceu antes da final entre River Plate e Boca Juniors está relacionado com muitos outros aspectos, não só futebolísticos. A permissividade dos clubes, que durante anos deixou as relações com suas “barras bravas” ultrapassarem o limite das arquibancadas é uma delas, assim como questões políticas e de crise vividas no país.

Resolver o problema não é fácil, mas um caminho para achar soluções é parar de olhar apenas para um lado e enxergar as três vertentes como uma coisa só: futebol, torcida e violência.

*Dados e informações do livro “A Rainha de Chuteiras”

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